«Odeio com ódio verdadeiro, não quem
escreve mal portuguez, não quem não sabe syntaxe, [...]
mas a página mal escripta, a orthographia sem ípsilon,
como escarro directo que me enoja independentemente de
quem o cuspisse.»
O Livro
do Desassossego,
Bernardo Soares (Fernando Pessoa)
A primeira reforma
ortográfica, em 1911, não foi acolhida pacificamente.
Fernando Pessoa esteve entre as vozes resistentes contra
aquela que foi a primeira tentativa de regulação e
simplificação da língua portuguesa, motivada, entre outras
razões, pela consciência da necessidade de alfabetização.
Passados 100 anos,
estamos a viver um novo momento de sistematização e de
mudança ortográfica. Também hoje, outras vozes manifestam o
seu incómodo. Da mesma forma que, há 100 anos, se lamentava
a queda do ph em pharmacia ou do Y em cysne,
outros lamentam, hoje, ter de escrever ação sem c
ou ótimo sem p.
A verdade é que as
línguas, como os tempos e as vontades, também mudam. Eis
um exemplo do que mudou: supressão gráfica de
consoantes mudas ou não articuladas.
É simples, o que não
se pronuncia não se escreve: adoção, arquitetura,
batismo, coleção, direção, direto, Egito, elétrico,
exatamente, excecional, letivo, objeto, proteção, seleção...
